Ao centésimo décimo segundo dia desta aventura decidi pegar num carro, matar saudades de estar sentado a um volante, percorrer vários quilómetros e ir passar o fim de semana fora de Berlim. Na realidade não decidi ao centésimo décimo segundo dia, mas sim no dia anterior, já que alugar carro nesta terra no próprio dia em que se precisa dele prefigura-se como uma tarefa digna de registo.
No Sábado anterior ao que diz respeito esta entrada tinha decidido fazer o que acabei por fazer apenas este fim de semana, ou seja, uma semana depois. Fui até ao centro de aluguer de automóveis e disse que queria um carro. Tinham muitos, pelo que seria apenas necessário preencher a papelada. Até que chegou a altura em que me perguntaram se eu sou residente na Alemanha, ao que eu disse que não. Não estou, e para falar verdade não quero estar, registado como residente na Alemanha, pelo que não podia mostrar nenhum papel que dissesse o contrário.
Ah e tal, lamentamos mas não temos carros disponíveis. Hum? Mas ainda há 5 minutos tinham tantos! Ah e tal, pessoas de outras nacionalidades têm de fazer as reservas com várias horas de antecedência. Se quiser vir buscar um carro às 18.00, temos todo o prazer em entregar-lhe um. Às 6 da tarde para ir onde quero ir passar o fim de semana? OK, fica para a próxima então. Essa merda é discriminação ó cambada de otários!
Na sexta-feira seguinte, ou seja no dia anterior ao Sábado a que esta entrada diz respeito, resolvi então fazer a reserva de um carro para evitar a repetição da história. Chegado ao centro automóvel lá estava então um carro à minha espera. Começar a preencher a papelada e, de acordo com as instruções da reserva, dizer ao tipo que queria levar o carro para determinado sítio.
Ah e tal, os carros alugados na Alemanha não podem ir para esse sítio. Ah e tal, desta vez não têm por onde pegar, porque eu fiz a reserva na vossa página internacional e lá dizia que não havia problema nenhum em levar o carro para esse sítio. Ah e tal, pois é verdade, mas normalmente não é assim, vou só então imprimir uma carta de autorização especial para circular nesse sítio, já que a sua reserva é internacional e temos de respeitar.
Inchem aí camelos! Acabaram de ter um português a pôr-vos um pauzinho na engrenagem e a lixar-vos aquilo que tanto gostam: excesso de regras para tudo e mais alguma coisa. É só para ficarem a saber que há pessoas a quem pagam para arranjar problemas, nas quais vocês estão obviamente incluídos, e outras a quem pagam menos mas que arranjam soluções. E estas últimas arranjarão sempre maneira de vos lixar o juízo.
Deixado para trás o desabafo, estava então na hora de fazer mais de 300 km antes de chegar ao destino. Desafiar o GPS a cerca de dois terços da viagem, já que há uma autoestrada que só existe no mapa, e andar em estradas estreitinhas a ver o que o Clio 1.4 era capaz de fazer. Isto sim é prazer de condução! À chegada, voltas e mais voltas a tentar não violar um sinal de trânsito proibido com inscrições numa língua estranha, o que acabaria mesmo por acontecer para conseguir chegar ao hotel localizado na rua Nerudova. Tudo OK com a reserva, pessoal hospitaleiro, subir ao quarto e ver que era mais pequeno que o apartamento em Berlim, mas mesmo assim com aspecto mais acolhedor.
Largada a mochila, estava quase na hora de conhecer esta cidade, que da zona do hotel em que fiquei tem este aspecto. Aceitam-se tentativas de adivinhar onde fica isto.
Eu disse que estava "quase" na hora de conhecer esta cidade porque antes havia algo prioritário a fazer: almoçar, que isto de chegar a um sítio às 14.30 sem comer não tem nada de interessante. Escolhi um dos primeiros restaurantes que vi com bom aspecto, entrei, pedi uma cerveja, já que este país é conhecido também por isso, e pedi uma dose de pato.
Como é que eu pedi isto tudo? Em inglês, pois claro! Ao contrário da Alemanha, que se acha um grande país e por isso a grande maioria das pessoas insiste em olhar com desdém e anular os parcos sorrisos próprios (que em muito raras vezes ainda têm coragem de mostrar) quando alguém que não fala a língua local tenta comunicar com os nativos, este povo há muito percebeu que ou fala inglês ou está fora.
Caramba! Uma dose de pato neste local é meio pato! Mas estava delicioso! Almoço: 455 unidades monetárias locais. Gorjeta recomendada: 45 unidades monetárias locais. Gorjeta efectiva: 65 unidades monetárias locais, o que originou um grande muito obrigado por parte das pessoas no restaurante. Quando as pessoas que estão de visita a um país são recebidas com sorrisos, é com sorrisos e simpatia que retribuem... Traduzindo para Euros, pouco passou dos 21. Agora que fiz as contas, fiquei a saber que a gorjeta adicionada à recomendada correspondeu apenas a cerca de 80 cêntimos...
Recomposto o conforto ao nível do estômago, estava então na hora de conhecer a cidade, até porque havia apenas menos de uma hora com luz de sol. Pois muito bem, vamos a isso.
Já deu para perceber onde fica isto? Ruas estreitas, casas com aspecto clássico, uma linguagem muito própria... Não ocorre nada? Então sigam mais umas fotos, até porque eu ando a treinar para tirar boas fotografias à noite com a minha máquina, a ver se os excelsos leitores e leitoras têm a geografia e história em dia e conseguem identificar onde é que isto fica.
Este monumento que se segue, por exemplo, fica junta à igreja de Svatý Mikuláš.
Malostranské náměstí tem este aspecto ao final da tarde.
Se olharem bem para os detalhes das fotos em baixo, conseguirão ver a hora a que a foto foi tirada, com e sem o modo automático da máquina ligado, o que justifica a diferente iluminação, e também que a lua já ia alta nessa altura... Atenção que estas fotos foram tiradas apenas algumas horas depois de eu chegar, e não durante a madrugada...
Pražský hrad, o maior castelo do mundo, fica aqui e tem aspecto de castelo de princesa da Disney... E é lá que estão guardadas as jóias da coroa Boémia.
O rio Vltava, que atravessa a cidade, tem uma ponte bastante famosa, que dá pelo nome de Karlův most, e que apareceu, entre outros, no vídeo do "Never Tear Us Apart" dos INXS, no vídeo do "Numb" dos Linkin Park, e nos filmes Missão: Impossível e xXx.
Rudolfinum - Dům umělců, uma das mais prestigiadas salas de concertos e exibições desta cidade.
A Týnský Chrám, numa das pontas da Staromestske, ou Praça da Cidade Velha, é uma das mais famosas igrejas desta cidade. Esta praça, datada do século XII, tem à sua volta edifícios dos estilos Romanesco, Barroco e Gótico, cada um espectacular em si.
O primeiro momento "Hum!?" do dia deu-se então enquanto eu calma e descontraidamente atravessava esta praça. Vi duas raparigas a um canto da praça com papeis na mão, mas com ar de quem não sabe para onde quer ir. Não era nada comigo, pelo que continuei.
"Excuse me!", ouvi então. Virei-me para elas e comecei a sorrir, à medida que lhes explicava que era tão turista quanto elas. Disseram-me que eu ia com um ar tão descontraído que acharam que eu era um habitante local e sabia exactamente para onde estava a ir. É fantástico sempre que isto me acontece! E sim, já me aconteceu várias vezes. Deve ser porque quando estou armado em turista ando a pôr em prática o ditado chinês que vai mais ou menos assim: "a viagem é a recompensa".
Perguntei-lhe então para onde queriam ir e disseram-me que queriam ir para um hotel numa rua ali perto, mas que não sabiam onde era. Puxei do mapa que tinha no bolso e comecei à procura, enquanto ia mantendo alguma conversa para não gerar silêncios desconfortáveis. Eram da Escócia, mas estavam temporariamente na Alemanha, se bem que não em Berlim. Ao fim de um ou dois minutos, lá lhes encontrei a morada que queriam e dei-lhes as direcções para lá chegar. Quando as pessoas que estão de visita a um país são recebidas com sorrisos, é com sorrisos e simpatia que retribuem...
Continuei então a minha viagem, que não tendo destino fixo, tinha apenas como objectivo ver um pouco da cidade até serem horas de jantar.
No centro da praça está a estátua de Jan Hus, erigida a 6 de Julho de 1915 para celebrar os 500 anos da morte do reformista.
Num dos lados da praça fica uma das torres mais famosas deste local, que suporta o Staroměstský orloj, ou relógio astronómico.
O Staroměstský orloj é um mecanismo complexo que data do século XV e que, entre outras coisas, mostra as horas, a fase lunar, os signos do Zodíaco, e mais uma data de coisas que eu não consigo descrever.
É uma das atracções principais da cidade, em especial devido ao facto de, durante o dia até às 9 da noite, à hora certa, o relógio ser palco de uma encenação em que as figuras dos apóstolos passam numas pequenas janelas, ao som das badaladas emitidas por um badalo manipulado por uma figura da morte.
Outra das praças principais da cidade é a Václavské náměstí, que é enorme, rodeada de lojas em grande parte e que no topo tem o museu nacional, ou Národní muzeum.
Andei mais um pouco ali à volta e tive o segundo momento "Hum!?" do dia. Desta vez um senhor dirigiu-me a palavra na língua local, ao que eu respondi em inglês que não falava aquela língua, tendo o dito senhor perguntado o mesmo em inglês. Voltei a puxar do mapa e indiquei-lhe o caminho para a praça acima mencionada. Quando as pessoas que estão de visita a um país são recebidas com sorrisos, é com sorrisos e simpatia que retribuem...
Fugindo ao centro da cidade, dá para ver que também há arquitectura mais moderna para estes lados, de que é exemplo o Tančící dům, ou casa dançante, da autoria de Vlado Milunić em cooperação com Frank Gehry (quem mais?).
Prosseguindo ao longo do rio consegue então ver-se a Šítkovská vodárenská věž.
Mais à frente aparece então o Národní divadlo, ou teatro nacional, um edifício imponente que foi todo ele construído à base de donativos populares.
O brilho da cidade junto ao rio é fantástico!
A Krannerova kašna é outro dos monumentos famosos desta bela cidade.
Mais uma foto do Pražský hrad, desta vez com uma fila de gaivotas (?) em linha no rio.
E finalmente, antes do regresso ao hotel, a chegada à Karlův most.
E ali ao lado, a Kostel svatého Františka z Assisi.
Estava então terminado o primeiro dia de visita a esta capital de um país vizinho da Alemanha. Não porque fosse tarde, mas sim porque eu estava cansado e a temperatura rondava o simpático valor de 0 graus.
Por esta altura já deveriam ter adivinhado que cidade é esta, mas pelo sim pelo não aqui fica. Tenho estado a falar da capital da República Checa, ou seja, de Praga.
Algumas horas de repouso absoluto no hotel, e sem ter de usar os tampões nos ouvidos que infelizmente sou forçado a usar todas as noites em Berlim à conta das bestas surdas e incapazes de viver em sociedade que moram em torno do apartamento, um pequeno-almoço reforçado, fazer o check-out e estava na hora de ver a cidade durante o dia.
Um pouco por toda a cidade é frequente verem-se lojas/oficinas de marionetas.
A entrada para o Pražský hrad, onde era possível ver, aliás como um pouco por toda a cidade, pessoas a tocar e cantar música clássica, com instrumentos apropriados.
Não vi o castelo por dentro. Assim já tenho uma boa razão, como se fosse preciso depois da excelente forma como fui tratado, para voltar a esta cidade.
A vista sobre a cidade antes de começar a descer por uma escadaria que poderia muito bem ser em Lisboa.
A Karlův most, que durante o dia é ocupada por turistas e artistas de todo o tipo a tentarem vender ilustrações, pinturas e fotografias da ponte nas mais variadas condições ao longo do ano. Esta ponte, mandada construir em 1357 durante o reinado auspicioso de Carlos IV, e cuja construção terminou já no século XV, foi durante muito tempo a única forma de cruzar o rio entre o castelo e a cidade velha, tornando Praga numa importante rota comercial entre a Europa de Leste e a Europa Ocidental.
Uma das estátuas mais famosas nesta ponte é a de Jan Nepomucký, um santo nacional que foi afogado no rio por ordem do rei. Dizem que era o confessor da rainha, mas que se recusou a revelar os segredos conhecidos em confissão... É tido como o patrono contra as calúnias e, à conta da forma como morreu, como protector contra as cheias. Deve ser por isso que toda a gente estava a passar a mão pela parte da estátua que se pode ver com bastante mais brilho...
De cima da ponte, a vista para a cidade e para o castelo é difícil de descrever.
E porque a ponte tem duas pontas, na ponta do lado da cidade velha há a Staroměstská mostecká věž, que marca então o final da ponte e a entrada na cidade.
Uma das ruas no centro da cidade.
Um edifício em estilo clássico, mas que não passa despercebido porque nos lembra uma das marcas mais famosas que são originárias da República Checa.
A Václavské náměstí, desta vez de dia.
O Národní muzeum.
A estátua de Svatováclavské.
A Státní opera Praha, ou ópera estatal.
Mais umas voltas pela cidade e a chegada à Prašná brána, que marca de novo a entrada na cidade velha.
Ali ao lado fica a Obecní dům, ou casa municipal, outro dos ícones culturais de Praga.
Mais uma passagem pela Staromestske.
Umas fotos do Staroměstský orloj, desta vez de dia.
No regresso ao local onde tinha deixado o carro, porque começava a ficar escuro e eu não queria andar de novo à procura do caminho, mas desta vez com ar de noite, as últimas fotos da cidade.
O castelo.
Rudolfinum - Dům umělců.
O rio Vltava e a Karlův most.
O Velký strahovský stadion, ou grande estádio de Strahov, o maior estádio do mundo, e ao pé do qual o Maracanã parece uma miniatura, tem o aspecto que as fotos seguintes não conseguem demonstrar. Lá dentro há espaço para nem mais nem menos que 8 campos de futebol! Podiam ser 9, mas um deles está a ser usado como estacionamento.
Há muito que deixou de ser utilizado para eventos desportivos oficiais, mas a sua capacidade para sentar mais de 200 mil pessoas é impressionante. A título de exemplo, no ano seguinte à separação da Checoslováquia em República Checa e Eslováquia, os Pink Floyd tocaram aqui e estiveram lá cerca de 250 mil pessoas. Ah pois é! Praga nunca recebeu os Jogos Olímpicos, mas estavam a candidatar-se em 1970 até que os Soviéticos fizeram com que Praga desistisse da candidatura.
Pode ser que numa próxima Olímpiada, já que a candidatura para 2016 falhou, Praga venha a transformar este sítio na aldeia Olímpica.
Há muito que deixou de ser utilizado para eventos desportivos oficiais, mas a sua capacidade para sentar mais de 200 mil pessoas é impressionante. A título de exemplo, no ano seguinte à separação da Checoslováquia em República Checa e Eslováquia, os Pink Floyd tocaram aqui e estiveram lá cerca de 250 mil pessoas. Ah pois é! Praga nunca recebeu os Jogos Olímpicos, mas estavam a candidatar-se em 1970 até que os Soviéticos fizeram com que Praga desistisse da candidatura.
Pode ser que numa próxima Olímpiada, já que a candidatura para 2016 falhou, Praga venha a transformar este sítio na aldeia Olímpica.
Uma última foto de Praga, vista um pouco mais de cima e num dia de nevoeiro, antes do regresso a Berlim, mais uma vez a desafiar o GPS que insistia em mandar-me para uma auto-estrada que só existe no papel.
Chegada a Berlim às 18.30, algumas voltas para abastecer o carro antes de o entregar e a chegada ao apartamento para perceber que uma das bestas surdas tinha a televisão de tal forma alta que, se estivesse a ver um programa em inglês ou português, eu teria percebido todas as palavras, sem esforço algum, e por cima do barulho da televisão no apartamento que me serve de albergue. Ah, saudades da civilização!
Já percebi que não adianta chamá-los à atenção, se é que tal coisa é possível com unidades orgânicas anti-sociais que se recusam a compreender inglês, porque ainda fazem pior... Sair para jantar do outro lado da cidade e regressar várias horas depois. O barulho maior tinha desaparecido, felizmente! Mantinha-se no entanto um ligeiro ruído de fundo, oriundo da televisão ligada 24 horas por dia de uma outra besta quadrada, mas com esse ruído posso eu bem e já estou habituado. Os tampões nos ouvidos anulam-no por completo...

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Bela passeata sim Sr.!
ResponderEliminarComo é que conseguiste fixar os nomes todos em Checo?! Cum caneco, ehehehe!
Abraço!
Ah, isso são segredos do ofício...
ResponderEliminarHá duas regras para ter sucesso:
1. Nunca dizer às pessoas tudo o que se sabe
2.
;-)