domingo, 17 de outubro de 2010

Dia 78: umas horas a Leste

O dia anterior àquele a que esta entrada diz respeito ficou marcado pela chuva que caiu, não deixando grande margem para passeios pela rua. Assim sendo, como neste dia o sol voltou a dar um ar da sua graça por estes lados, aproveitei para conhecer um pouco da parte mais a Leste desta cidade. A parte que em tempos não muito longínquos estava desligada do mundo.

Uma viagem de S-Bahn de alguns minutos até Alexanderplatz e a ideia era começar desde aí e ver um pouco mais daquela parte da cidade. Alguns minutos depois, porque nada de especial se passava ali à volta, voltar a entrar no S-Bahn e ir um pouco mais para este na linha, até uma estação onde já tinha saído antes para jantar com alguns colegas: Warschauer Straße. A estação fica mesmo ao lado da Oberbaumbrücke, uma das mais famosas pontes de Berlim.

Construída entre 1894 e 1896, foi já no século XX, mais propriamente entre 1961 e 1989, que a ponte ficou mais célebre, por ser um dos pontos de controlo fronteiriço entre a República Federal Alemã e a República Democrática Alemã. Na altura só podia ser utilizada por pedestres, hoje é utilizada pelo U-Bahn, por pedestres e por carros.

 
 
 

Para além de toda a história da ponte enquanto ponto de controlo fronteiriço entre o Leste e o Oeste, há um momento que me ficou particularmente marcado, por espelhar na perfeição a diferença entre uma mentalidade federal e uma mentalidade dita democrática.

A 11 de Maio de 1975, Celin Mert, uma criança de 5 anos caiu no rio Spree, numa zona que pertencia totalmente à parte leste da cidade de Berlim. Habitantes e bombeiros de Berlim Ocidental correram para o local, mas os guardas fronteiriços recusaram autorizá-los a salvar o petiz. Os cidadãos de Berlim Ocidental acabaram por não intervir, perante a ameaça de serem mortos a tiro por "violarem a fronteira", ficando então limitados a assistir à inoperância dos guardas fronteiriços que também nada fizeram. A criança acabaria por não resistir. Só a 29 de Outubro do mesmo ano é que o Senado de Berlim Ocidental e o governo da RDA assinaram um tratado que permitia aos cidadãos de Berlim Ocidental responderem a emergências aquáticas ao longo da fronteira...


A estação em si, e não a ponte, fica numa zona que costumava ser das mais pobres de Berlim. 20 anos depois, apesar de muito ter mudado, ainda é fácil ver por aqui resquícios dos tempos em que estava do outro lado do muro da vergonha.


A título de exemplo dessa influência do passado, todas as casas que aqui estão há mais de 20 anos têm graffiti nas paredes. Sim, eu disse todas. Mesmo as que teriam bom aspecto não fossem então os tais graffiti ao nível do rés-do-chão. E se eu não soubesse melhor, diria facilmente que é um sítio onde moram vários portugueses, tal não é o atentado arquitectónico e visual com as parabólicas nas janelas.

 


Mais alguns minutos a andar e estava na hora do almoço, que é algo que acontece quando se sai para a rua já a horas adiantadas da manhã, pelo que era necessário encontrar um sítio que tivesse comida.

Entrei num restaurante e estava a sentar-me a uma mesa quando a serviçal se dirigiu a mim e me disse qualquer coisa. Como percebi que não tinha percebido nada do que ela disse, pedi-lhe para falar em inglês e ela a grande custo lá me disse que não serviam mais refeições naquele dia porque a cozinha já estava fechada. Tudo bem. De certeza que há nesta cidade quem me arranje almoço às 2 da tarde!

Enquanto saía do restaurante e procurava outro local para almoçar, lembrei-me das palavras da Chanceler Angela Merkel a declarar que as tentativas de criar uma sociedade multi-cultural na Alemanha tinham falhado porque as pessoas que para cá vêm trabalhar não aprendem Alemão... Sim, deve ser isso... Até porque o Alemão deve ser a língua mais fácil de aprender do mundo... E que tal os locais fazerem um esforço por ser simpáticos com as pessoas que cá estão e que não falam a língua?  Porque estão cá a gastar dinheiro e... sei lá, a contribuir para a economia Alemã... E que tal os locais aprenderem um pouco de uma língua que é falada em todo o mundo, em vez de só falarem esta espécie de língua que só eles é que falam no mundo inteiro? Ah, pois devo estar a pedir muito... Cambada...

Ultrapassada a situação do almoço, com o recurso a uma empresa que nunca falha quando toca a vender aquilo porque ficaram conhecidos, ou sejam hambúrgueres, estava então na altura de andar um pouco por ali e ver o que aquela parte da cidade ainda tem por mostrar.


 

Desde logo salta à vista o Molecule Man, uma escultura de 30 metros de altura, elaborada pelo artista Norte Americano Jonathan Borofsky. Sim, o tal que combinou o estilo minimalista com a pop art, mostrando ao mundo que pop art não tem de ser apenas da forma que Warhol iniciou, mostrando aos cépticos que a pop art é, efectivamente, todo um modo de estar na vida e que há muita gente que gosta deste tipo de arte legitimamente. 

Sim, o autor do Molecule Man é o mesmo artista que fez a escultura Walking to the Sky, que representa uma criança, uma mulher de negócios, um jovem, entre outros, a andar num poste de 30 metros que aponta para Este com uma inclinação de 75 graus, e que em tempos esteve no Rockeffeler Center, mas que agora está em Pittsburgh, numa universidade local que dá pelo nome de Carnegie Mellon. É me ligeiramente familiar... Segundo o artista, a escultura é uma "celebração do potencial humano para descobrir quem nós somos e onde é que precisamos de ir".

Mas voltemos ao Molecule Man. A escultura consiste em três figuras humanas inclinados uns contra os outros, em que cada humano tem centenas de buracos. Os buracos simbolizam "as moléculas de todos os seres humanos a juntarem-se para criar a nossa existência".

Olhando para o outro lado do rio, onde antigamente era efectivamente o lado Leste, podemos ver que há marcas do passado lado a lado com edifícios mais modernos, como que a simbolizar uma Alemanha renascida.


E sim, aquela parede com graffiti é mesmo um pedaço do muro, e faz parte da maior extensão que podemos encontrar na posição e forma original.

Já que falei na maior extensão do muro na posição, forma e localização originais, acrescento aqui que essa extensão do muro é uma exposição ao ar livre, onde artistas de todo o mundo pintaram imagens e dizeres, quando o muro caiu. A exposição chama-se East Side Gallery e fica para a direita de quem vem da estação de Warschauer Straße em direcção à Oberbaumbrücke. É praticamente impossível não a ver. Em 2009, por ocasião dos 20 anos da queda do muro, toda a exposição foi restaurada com grande esforço.

 
  

Uma homenagem ao Checkpoint Charlie.

 

Alguém a exorcizar fantasmas da altura ou de antes do muro ter caído.


Uma frase muito profunda: muitas pessoas pequenas (no sentido de importantes), que em muitos sítios pequenos fazem muitas coisas pequenas que podem mudar a face do mundo.


 Uma imagem a lembrar que não devemos deixar-nos tratar como marionetas.


Um pouco por todo o mundo, continuamos a construir muros, em vez de construirmos pontes.


Uma imagem que mostra os dois muros na posição original. Sim, porque o muro de Berlim fisicamente era constituído por dois muros de cimento, com uma zona de contenção entre ambos, para ser mais fácil evitar que as pessoas passassem de um lado para o outro. Nesta zona de contenção havia de tudo desde arame farpado a cães e malta mal-humorada...


Um dos sítios onde o muro tem uma porta, para se poder chegar à zona de contenção em caso de ser preciso.




Um imagem que me fez pensar onde é que eu já tinha visto isto. E depois lembrei-me que tinha sido no vídeo do Another Brick in The Wall dos Pink Floyd. Apropriado.




O currículo deste muro. Cada rosa nos números representa 136 pessoas. Fico feliz por em 1976, 1978, 1979, 1985 e 1988 ninguém ter perdido a vida por causa do muro... Curioso que em 1961 os refugiados da RDA deram origem à construção do muro, sendo que em 1989 os mesmos refugiados estiveram na origem da sua queda. Irónico... ou talvez não.


Dançando para a liberdade: mais guerras não, mais muros não, um mundo unido. E não é que ficava tudo muito mais fácil?


Antes de terminar o dia, apenas a referência a algo que já aqui mencionei nesta entrada. Há edifícios novos a contrastar com os edifícios antigos, lado a lado nesta parte da cidade. A Alemanha renasceu há cerca de 20 anos, essa coexistência de edifícios é apenas uma forma de não nos esquecermos que as coisas más não têm de durar para sempre. E que a força de muitos a querer a mesma coisa pode efectivamente mudar o mundo.



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